
[A persistência da memória, Salvador Dalí]
Quando me chamaram de senhora era eu ainda uma rapariga cujos membros em crescimento não eram acompanhados pela coordenação motora, ainda chutava as pedras na calçada e batia a porta do carro quando os meus caprichos eram menosprezados. E enchi de orgulho, endireitei as costas nesse dia livres da pesada mochila escolar. O tempo era para mim um conceito fluido, escorregadio, mas agradável porque sempre a meu favor.
Ser uma senhora ou ser uma rapariga, uma menina, tudo se resumia a levar nos braços os livros da escola ou a borrar a cara de maquilhagem e fazer cessões de equilibrismo em cima de calçados surripiados do armário materno. Ser adulta e responsável era um papel que me representava em frente ao espelho e que por vezes levava à rua e no qual era reconhecida. E orgulhava-me das minhas capacidades, pois não passavam disso mesmo, não via nesse tratamento deferencial o riso do tempo, podia sempre refugiar-me na minha incapacidade, na minha imaturidade.
Hoje não estranho que me chamem senhora, agora que vivo só, ao espelho brinco a ser miúda e a ver o mundo a preto e branco. Brinco a carregar mochilas e a usar sapatilhas com bonecos. Os velhotes no autocarro, carregando eles próprios o peso do tempo para lá do que me é suportável imaginar, são os únicos que percebem o jogo e que não se recusam a tomar parte: “sente-se, menina”. Dizem que terei oportunidades de sobra de ser uma senhora com brincos pesados e uma postura rígida. Por vezes tratam-me assim mesmo quando estou camuflada de adulta responsável, outros ficam simplesmente confusos, sem saberem como nomear aquela criatura híbrida.
Todos as outras pessoas, principalmente as que arrastam atrás de si crianças pequenas, não têm tempo para infantilidades. Exigem de mim uma máscara que já não sai. O tempo é um conceito fluido, sim, mas que não faz amigos.



