A obrigadinha

Exercícios com maior ou menor ligação com a realidade

A uma jovem mulher

                                   

[Pierre Auguste Renoir, Lectrices]

Conheço uma rapariga, uma mulher em aprendizagem, que tem na pele morena gravados os mil perfumes de uma terra distante, que tem nos olhos escuros os reflexos de viagens sem fim, mas cujos braços, sempre abertos a um carinho, a uma ternura, nos fazem sentir que os sonhos dela não precisam de um país, precisam apenas de companhia.
Conheço uma rapariga, usa chapéus largos e nos cabelos negros corre-lhe uma brisa vinda dos trópicos, que está a aprender a ser mulher. Terá pressa? Aproveitará cada curva do caminho para se sentar à conversa com os peregrinos de outras andanças? Abrirão uma toalha aos quadrados e quedar-se-ão, apreciando o céu, as estrelas e as histórias?
Conheço uma rapariga, as palavras, numa língua que lhe emprestaram e fez sua, que envolve-as sempre numa leve melodia, numa sugestão de uma dança suave. Está na soleira da vida adulta, burocrática e com impostos e responsabilidade, mas gosto dela porque sei que era ainda capaz de usar uma coroa de flores apanhadas nos campos ou brincos de cereja. E gosto dela também pelas coisas que não diz, pelo que sugere num silêncio, numa eloquência de outras latitudes, de outras paisagens.
Essa rapariga tem lábios rosados, que me fazem lembrar pequenos botões de rosa, que gosto de ver desabrochar num sorriso sincero e com que ela me presenteia com simplicidade, como se a alegria dela (também) me pertencesse. Essa rapariga, que por vezes se aborrece e tem medo, estará ela apenas de passagem? Encher-me-á uma caixa com a sua alegria antes de ir? Ou apanhar-me-á mais à frente no caminho, inesperadamente, pelo prazer de me surpreender?
Essa rapariga, uma jovem mulher, espero que me deixe continuar a polvilhar a vida dela com pequenas estrelas em forma de forma de histórias levadas da breca.

[Imagem de judeus austríacos sendo obrigados a limpar as ruas por oficiais nazis aquando da anexação do seu país pelo Reich Alemão, em 1938]“Não sei muito bem o que é a dignidade humana, mas conheço bem, muito bem, o que é a humilhação.”André Malraux

[Imagem de judeus austríacos sendo obrigados a limpar as ruas por oficiais nazis aquando da anexação do seu país pelo Reich Alemão, em 1938]

“Não sei muito bem o que é a dignidade humana, mas conheço bem, muito bem, o que é a humilhação.”
André Malraux

[Francisco de Goya, El tres de Mayo de 1808 ou Los fusilamientos de Príncipe Pio]

“Mankind, which in Homer’s time was an object of contemplation for the Olympian Gods, now is one for itself. It’s self-alienation has reached such a degree that it can experience its own destruction as an aesthetic pleasure of the first order.”Walter Benjamin 

O Senhor dos Impostos

Três leis para os reis-estrangeiros sob este céu;

Sete para os senhores-ricos em seus luxuosos corredores;

Nove para os homens pobres fadados a cumprir;

Um para os Senhores da Troika em seu Escuro Trono,

Na terra dos Tugas, onde as Austeridades se deitam.

Um PEC para a todos governar, um PEC para encontra-los,

Um PEC para a todos trazer e na Escuridão aprisiona-los,

Na terra dos Tugas, onde as Austeridades se deitam.



[Baseado no Poema dos Anéis, presente no Senhor dos Anéis, de J. R. R. Tolkien] 

Bons cidadãos

Numa aula, a professora lança a pergunta:

- Como se caracteriza um bom cidadão?

Silêncio; timidez, má-vontade ou apenas desinteresse pelo tema?

- Vá, digam lá, quem é para vocês um bom cidadão!

Há um, mais afoito, que se lança aos leões:

- Um bom cidadão é aquele que cumpre a lei.

Toda a gente pareceu ficar muito agradada com a resposta. Ninguém questionou se as leis eram justas ou não, o critério da obediência a um poder externo pareceu ser suficiente - como disse o Shaw: “if history repeats itself, and the unexpected always happens, how incapable must Man be of learning from experience.”

Quando for grande (IV.2)

            

[Fotografia de Jeanloup Sieff]

A gravata, entre o desafio e o enaltecimento de uma qualquer condição.

Quando for grande (IV)

           

[Retrato de mulher com gravata preta, Amadeo Modigliani]

Quando for grande vou-me comprar uma gravata, escrevi no meu caderninho. Preta, fina, selecta.
Em criança, nada me captava mais a atenção do que aqueles panos pendurados no armário que por meio de laços mágicos, símbolos de um mundo adulto e sério, e por isso mesmo ainda mais misterioso, que por meios de voltas e contravoltas hipnotizantes, viravam aquele atributo de um clube distinto.
Já em adulta, nada me fascina mais do que uma mulher envergando essa peça masculina, mas com uma feminilidade – apesar desse acto rebelde, ou por causa dele – subtilmente sublinhada.
Entre mistérios de infância e fascínios de idade adulta, pela criança que fui nem sequer adivinhados, pavonearei a confusão entre os sexos ao meu pescoço, de costas direitas e peito para fora, elegante.

O tempo

           

[A persistência da memória, Salvador Dalí]

Quando me chamaram de senhora era eu ainda uma rapariga cujos membros em crescimento não eram acompanhados pela coordenação motora, ainda chutava as pedras na calçada e batia a porta do carro quando os meus caprichos eram menosprezados. E enchi de orgulho, endireitei as costas nesse dia livres da pesada mochila escolar. O tempo era para mim um conceito fluido, escorregadio, mas agradável porque sempre a meu favor.
Ser uma senhora ou ser uma rapariga, uma menina, tudo se resumia a levar nos braços os livros da escola ou a borrar a cara de maquilhagem e fazer cessões de equilibrismo em cima de calçados surripiados do armário materno. Ser adulta e responsável era um papel que me representava em frente ao espelho e que por vezes levava à rua e no qual era reconhecida. E orgulhava-me das minhas capacidades, pois não passavam disso mesmo, não via nesse tratamento deferencial o riso do tempo, podia sempre refugiar-me na minha incapacidade, na minha imaturidade.
Hoje não estranho que me chamem senhora, agora que vivo só, ao espelho brinco a ser miúda e a ver o mundo a preto e branco. Brinco a carregar mochilas e a usar sapatilhas com bonecos. Os velhotes no autocarro, carregando eles próprios o peso do tempo para lá do que me é suportável imaginar, são os únicos que percebem o jogo e que não se recusam a tomar parte: “sente-se, menina”. Dizem que terei oportunidades de sobra de ser uma senhora com brincos pesados e uma postura rígida. Por vezes tratam-me assim mesmo quando estou camuflada de adulta responsável, outros ficam simplesmente confusos, sem saberem como nomear aquela criatura híbrida.
Todos as outras pessoas, principalmente as que arrastam atrás de si crianças pequenas, não têm tempo para infantilidades. Exigem de mim uma máscara que já não sai. O tempo é um conceito fluido, sim, mas que não faz amigos.

Ironia (III)

As pessoas saudáveis gostam de coisas saudáveis e que o mundo todo seja saudável e florido e socialmente responsável como elas. E então compram artigos socialmente responsáveis, indignam-se com as disparidades do mundo enquanto bebem uma cerveja feita com cevada biológica cultivada por meninos pobres do Tibete que nunca viram o mar, porque querem deixar um mundo para os filhos. Acham inclusivamente que o uso de químicos na agricultura devia ser criminalizado e gostam de pensar isso de manhã, quando esfregam a cara com produtos de nome impronunciável mas que não foi testado em animais, para que as suas faces conservem a frescura da mãe natureza em todo o seu esplendor.
Comida, os seus estômagos  social e ambientalmente conscientes só aceitam produtos saudáveis, cultivados segundo técnicas ancestrais nas montanhas dos Andes e apanhado ainda com o orvalho da manhã, embalado em materiais recicláveis e trazidos em aviões movidos a biodiesel ou óleo de fritar de modo a conservar todas as propriedades saudáveis, social e ambientalmente responsáveis de toda essa ecológica cadeia.

Article n.º 5

“Ladies and gentleman this is Article no 5

 

One, two, three, four, five everybody in the car, so come on

Let’s ride to the courthouse around the corner

The boys say they want some lawsuits

But I really don’t wanna rulings like I had last week

I must stay deep because talk is cheap

 

I like torts, taxes, property and rights

And as I continue you know they are getting sweeter

So what can I do I really beg you my Lord

To me is studying it’s just like sport, anything fly

It’s all good let me dump it please set in the practice

 

A little bit of procedures in my life, a little bit of judges by my side

A little bit of rulings is all I need, a little bit of doctrine is what I see

A little bit of work under the sun, a little bit of studying all night long

A little bit of bureaucracy here I am, a little bit of you makes me your man

 

Article no 5

 

Write up and down and move it all around

Shake your pen to the paper, put your hand on the ground

Take one opinion left and one opinion right

One to the front and one to the side

Check your books once and check your books twice

And if it looks like this then you are doing it right

 

A little bit of procedures in my life, a little bit of judges by my side

A little bit of rulings is all I need, a little bit of doctrine is what I see

A little bit of work under the sun, a little bit of studying all night long

A little bit of bureaucracy here I am, a little bit of you makes me your man

Practice, the practice

 

Article no 5

 

A little bit of procedures in my life, a little bit of judges by my side

A little bit of rulings is all I need, a little bit of doctrine is what I see

A little bit of work under the sun, a little bit of studying all night long

A little bit of bureaucracy here I am, a little bit of you makes me your man

 

I do all, to understand a law like you

You can’t run and you can’t hide

You and me gonna touch the court

 

Article no 5”

Para todos os que se debatem com assuntos jurídicos.

[Baseado nesta música: http://www.youtube.com/watch?v=EK_LN3XEcnw&ob=av3e]