Do verbo artístico, fazer carne.
(Ou Julianne Moore posando igual ao modelo de Egon Schiele.)
Do verbo artístico, fazer carne.
(Ou Julianne Moore posando igual ao modelo de Egon Schiele.)
Ah grande macho lusitano, não havia fêmea que escapasse aos teus olhos. Nova ou velha, mas de preferência nova, bamboleante e saltitante, não havia decote que a tua mente não devassasse, não há pernas que não percorresses em antecipação, não havia para ti conversas sagradas, conversas que não merecessem ser relegadas para segundo plano perante a sinfonia de silêncio com que brindavas a generosidade da natureza para com as formas femininas! E no teu grande esforço, na tua ânsia por encontrar piropos que cobrissem de saudável rubor os rostos delas, maquilhados ou ao natural, de preferência sem buço, até o futebol estavas disposto a sacrificar. (Nem sempre, que a carne é fraca perante o espírito!) Tudo o que fazes era um hino às mulheres (dos outros), para que se sentissem desejadas. Tudo o que fazias, grande macho lusitano, era artístico, literário. Servias-te, todo tu, numa bandeja de paisagem social, ou acaso não sabias que, qual Atlas, era sobre ti que pendia a dura tarefa de dar cor ao Verão das mulheres, estrangeiras ou portuguesas, loiras ou morenas, altas ou baixas? Sabia-lo, e sabia-lo bem, e aceitavas sem um queixume essa grande missão histórica que a Providência te deixou. Pobre da pequena que saísse menos vestida de casa que não recebesse a coroa de louros de um assobio! Ah, grande macho lusitano que assim te sacrificavas! Tu que por ti passarias todo o dia de volta da cerveja, dos jornais desportivos e de uma bela churrascada, preferias vestir-te, trabalhar, cansar-te, só para teres o pretexto de elogiar todo o rabo de saias que passasse.
Ah pobre macho lusitano, a modernidade traiu-te. O teu grande espírito de abnegação de que te serviu quando foste acusado de porco, grosseiro, desrespeitador, machista? De que te serviu quando foste acusado de tornares mulheres em objectos? Perdeste-te. As tuas musas rebelaram-se! A tua missão histórica falhou! Triste e desiludido, afundaste-te em álcool e silêncio, sem saberes que fazer à pança e ao bigode, sem terapia suficiente para ti. Perante tamanho ataque ao teu modus vivendi, deixaste de olhar para as donas dos vestidos esvoaçantes que passavam por ti, já não fazes questão que uma mulher entre primeiro na sala para lhe micares o rabo, já nem assobiar sabes, para as não ofenderes.
Mas ah, pobre grande macho lusitano, como te não invejo a sorte! Olha para ti hoje, vais calado no teu canto do comboio, ou no carro, mal um par de mamas te salta à frente desvias os olhos, para não ofenderes ninguém, e eis que as orelhas se te aquecem com a acusação da velhota à tua frente, com um esgar de nojo e desaprovação: “cambada de paneleiros!”. Enfurecido, o teu gosto pelo feminino posto em causa, assobias ou buzinas ao primeiro rabo em calções que vês e logo estala um burburinho “seu porco, não tens uma irmã em casa?”.
Pois é, macho lusitano, a única explicação que encontro para isto é que, decerto invejoso das tuas habilidades que as inquilinas satisfeitas de S. Pedro vão deixando escapar lá pelo Paraíso, deus inventou a pós-modernidade, onde já não podes assobiar ou mandar piropos e ainda assim tens de arranjar forma de fazer saber às representantes do sexo que se cruzam contigo que as achas tremendamente apetitosas. Principalmente no verão. Custe o que custar.
É isso, ou podes sempre refugiar-te nas bifas, que tudo te perdoarão à custa do teu exotismo moreno e peludo.

[Gary Cooper reading Hemingway’s “farewell to arms”]
5. O direito a ler não importa o quê.
[Como um Romance, Daniel Pennac, edições Asa]
Há noites de sexta-feira talhadas para se arquitectar revoluções. Mudar de vida. Outras, menos ambiciosas e mais subtis, deviam simplesmente deixar entrever um beijo numa viela mal-iluminada como uma senhora sabe deixar entrever a perna num vestido comprido. Deviam prometer risos e um jogo de ancas, uma sugestão como o fumo que se vai libertando de um cigarro pousado em busca de lábios que larguem a conversa.
Basicamente, sextas-feiras à noite há cujo único dever é o de libertar o suave odor a esta música.
A minha vizinha fala ao telemóvel muito exaltada, para volta e meia as palavras trotaram para um ritmo alegre de cantoria: ganhámos, ganhámos! E num fôlego só relata o giro que foi ver as pessoas, perdão, os portugueses, esse grande povo, agora é que se viu a raça da nossa gente, ora tomem!, e eu saltei com eles e estava lá no café, até fiz uma camisola, e que fiquei preocupada quando empatámos mas eu sempre soube que íamos ganhar, eu senti! Bem, retomando o fio à meada, a minha vizinha, essa descoberta paladina da nacionalidade, relata o giro que é ver os portugueses unidos, cantar o hino, mãos ao peito e aqui d’el-rei que ninguém nos pára.
No meio deste emocionado relato, tem até tempo para me cumprimentar. Não estivesse ela ao telemóvel e tenho a certeza que poderia até falar cordialmente com ela sobre a árvore que cresce para o meu jardim. Ou sobre os problemas de humidade que vêm da casa dela. Ou sobre ela parar de se importar que as pessoas se divirtam audivelmente a horas normais paredes-meias. Porque, por estes dias, deixamos de ser apenas vizinhas de candeias às avessas; valores mais altos se alevantam. Somos um povo civilizado, com uma missão, uma só alma, unidos! Sentimentos tão elevados que não podem ser desperdiçados em comezinhas relações de vizinhança - para isso temos sempre a faca e o alguidar.

[Moshe Shai, Homeless Man Reading Books]
4. Direito a reler.
[Daniel Pennac, Como um romance]
Ele observa-a atentamente, enquanto ela se esmera ao espelho, tentando esquecer-se de si, cobrindo-se com pós e tintas e uma imagem que não lhe pertence. Ela terá 20 anos, frescos e ainda a cheirar a novo, ele terá a seu favor a calma enérgica dos 30, a desfavor a pouca elasticidade de quem já se desiludiu. Espera pacientemente na poltrona, até ver os gestos lentos dela mudarem para rápidos e frenéticos.
Levanta-se e olha-a bem de perto, ela não cora, apenas brilha de cremes e pós. Perscrutando-lhe cada centímetro da face e apontando depois:
- É melhor ires retocar isso.
- Porquê?
- Deixaste um bocado de cara na tua maquilhagem.
Se o Gotye tivesse de lidar com as nossas leis e a nossa administração, esta teria sido a música que hoje passaria nas rádios:
Now and then I think of when we were together
Like when you stated that you could rule me till I die
Told myself that you were right for me
But felt so strange in your company
But that was government and it’s an ache I still remember
You can get addicted to a certain kind of bureaucracy
Like resignation to a clerk, always a clerk
So when we found out that you were not for me
Well, you said maybe if we use an analogy
But I’ll admit I was glad that it was over
But you didn’t have to cut me off
Give other the credit and pretend that we were nothing
And I don’t even need your rules
But you make give back the money and that feels so rough
No, you didn’t have to stoop so low
Have the police collect my ID and bug my number
Now you’re just some law that I used to know
Now you’re just some law that I used to know
Now you’re just some law that I used to know
Now and then I think of all the times you screwed me over
But had me believing it was always something that I stated
But I don’t wanna live that way, reading into every paper you bring
You said that you could let it go
And I wouldn’t catch you hung up on some law you used to know
But you didn’t have to cut me off
Give other the credit and pretend that we were nothing
And I don’t even need your rules
But you make give back the money and that feels so rough
No, you didn’t have to stoop so low
Have the police collect my ID and bug my number
Now you’re just some law that I used to know
Some law, I used to know
Some law, now you’re just some law that I used to know
Some law, I used to know
Some law, now you’re just some law that I used to know
I used to know
That I used to know
I used to know
Some law
[Hugo Pratt, Corto Maltese]
Enquanto os meus dedos se ocupam da realidade, tentando aplacar os deuses da contingência, no fundo da minha mente paira o suave cheiro a água salgada, a leve instabilidade de uma viagem sob os meus pés, o gemer da madeira sob o peso de um corpo, o baloiçar de uma cama de rede sob o abrigo indolente de uma sombra, o calor de sonhos feitos de tinta e papel…
Duas velhas, acabadas de sair do cabeleireiro, a cara arada de rugas, petrificada numa permanente congestão de desprezo e desagrado. Seguem pela rua, lado a lado, gémeas de um descontentamento de 50 anos ou mais.
Aproximam-se da paragem do autocarro, há uma fila de jovens com calças largas a escorregar pelo rabo, decotes e piercings, cabeças meias-rapadas. Se não fossem senhoras, cuspiriam com nojo perante a visão:
- Esta juventude está perdida! -, e passam à frente de tudo e todos, protegendo-se com uma armadura de cabelos brancos e perfume demasiado forte. Nenhum dos jovens faz tenção de as impedir, desviando-se para as deixar concretizar os seus intentos.
No autocarro, os lugares estão todos ocupados. Olham como harpias para os assentos a que julgam ter direito, reprovando uma mãe com os seus 20 anos e um pequeno irrequieto nos braços. Galdérias!, sibilam, meneando desaprovadoramente a cabeça, a forçando um coxear e uma quebra de tenção. A jovem mãe pega na criança e levanta-se para lhes dar lugar: vamos sair na próxima, façam favor!
- Esta juventude está perdida! – ninguém diz seja o que for. Talvez tenham razão – que será do nosso pobre mundo sem pessoas como estas para garantir o seu funcionamento ordeiro? Oh bastiões da virtude e do respeito, não nos abandoneis!